Ildaborges’s Blog

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O Gabinete de Jacinto; só não tinha Internet!

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“..toda uma Máquina sumptuosa, aparelhos, rodas, lâminas, tubos, engrenagens, hastes, friezas, rigidezas de metais…

… examinei curiosamente, sobre a sua imensa mesa de trabalho, uma estranha e miúda legião de instrumentozinhos de níquel, de aço, de cobre, de ferro, com gumes, com argolas, tenazes, com ganchos, com dentes, expressivos todos, de utilidades misteriosas. Tomei um que tentei manejar – e logo uma ponta malévola me picou um dedo.

E, com efeito, de uma redoma de vidro posta numa coluna, contendo um aparelho esperto e diligente, escorria para o tapete, como uma ténia, a longa tira de papel com caracteres impressos que eu, homem das serras, apanhei, maravilhado. A linha, traçada em azul, anunciava ao meu amigo Jacinto que a fragata russa Azoff entrara em Marselha com avaria.

Jacinto atirou uma exclamação impaciente:

-Oh, estas penas eléctricas!… Que seca!

Pulei, com um berro.

- Oh Jacinto, aqui há um homem! Está aqui um homem a falar dentro de uma caixa!

O meu camarada, habituado aos prodígios, não se alvoroçou:

É o Conferençofone…Exactamente como o Teatrofone, somente aplicado às escolas e às conferências. Muito cómodo!

Os utensílios misteriosos que atulhavam a mesa de ébano foram para ela (a condessa de Trèves) uma iniciação que a enlevou. Oh, o “numerador de páginas”! oh, o “colador de estampilhas”!

Afinal, há pouco mais de cem anos, parece que nem a Internet faltava, no Gabinete de Jacinto! Mas já a tira de papel do telégrafo comparada , por Zé Fernandes a uma ténia, e os aparelhozinhos que picavam constituem pequenos indícios ou presságios para desconfiar de tanto “progresso”.

Novembro 15, 2009 Publicado por ildaborges | FEQ, Património, Região | | Sem comentários ainda

A Biblioteca do 202

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O meu amigo roçou de leve o dedo na parede: e uma coroa de lumes eléctricos, refulgindo entre os lavores do tecto, alumiou as estantes monumentais, todas de ébano. Nelas repousavam mais de trinta mil volumes, encadernados em branco, em escarlate, em negro, com retoques de ouro, hirtos na sua pompa e na sua autoridade como doutores num concílio.”

(Idem)

Outras descrições de mais pormenor nos falam de uma verdadeira “invasão de livros” no 202, ou mesmo de uma “fartura de livros”, por vezes associadas a alguns episódios pitorescos,

O que não é de desprezar, quando, mais adiante, esta nossa (re)leitura for encontrar, em Tormes, o mesmo (?) Jacinto apenas na companhia do Ulisses de Homero, ou de Quixote e Sancho Pança, ou ainda dos versos de Virgílio, nos seus louvores à Natureza.

Novembro 11, 2009 Publicado por ildaborges | FEQ, Património, Região | | Sem comentários ainda

202 Champs–Elysées

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Mas dentro, no peristilo, logo me surpreendeu um elevador instalado por Jacinto –  apesar de o 202 ter somente dois andares, e ligado por uma escadaria tão doce que nunca ofendera a asma da Sra. Dª Angelina! Espaçoso, tapetado, ele oferecia, para aquela jornada de sete segundos, confortos numerosos, um divã, uma pele de urso, um roteiro de Paris, prateleiras gradeadas com charutos e livros. Na antecâmara, onde desembarcámos, encontrei a temperatura macia e tépida de uma tarde de Maio, em Guiães. Um criado, mais atento ao termómetro que um piloto à agulha, regulava destramente a boca dourada do calorífero. E perfumadores, entre palmeiras, como num terraço santo de Benares, esparziam vapor aromatizando e salutarmente humedecendo aquele ar delicado e superfino.

Eu murmurei, nas profundidades do meu assombrado ser:

- Eis a Civilização!

(Eça de Queirós, A Cidade e as Serras, Ulisseia, com uma boa Introdução de Carlos Reis)

E assim, entramos nós também no palácio onde vivia Jacinto, o herói do nosso romance, na companhia do seu amigo Zé Fernandes, que nos vai contar a história, em permanente diálogo connosco, muitas vezes concordando e outras tantas discordando das ideias e atitudes do “seu Príncipe”.

E deste modo começamos também a tomar contacto com um cenário do mais avançado e discutível “progresso” onde Jacinto passou a primeira parte da sua vida.

Como nota curiosa, sendo os Campos Elíseos a avenida mais conhecida de Paris, e uma das mais conhecidas do mundo, o número 202 não existe!

Ou melhor: existe n’A Cidade e as Serras! E até se dá o caso de uma das muitas traduções do romance ter por título “202 Champs-Elysées” precisamente da professora Marie Hélène Piwnic, nada mais nada menos do que uma das coordenadoras das Conferências Queirosianas Internacionais, a que já me referi anteriormente.

Novembro 11, 2009 Publicado por ildaborges | FEQ, Património, Região | | Sem comentários ainda

De Vila Nova a Tormes.

sta cruz do douro

“Quinta de Vila Nova

Sta. Cruz do Douro

2 Junho 1898

                                   Minha querida Emília:

      Estou aqui há dois dias com o Luís. O tempo tem estado esplêndido até agora;  – até um luar esplêndido nos favorece. Falo do luar porque o vejo através das janelas sem vidraças, enquanto escvrevo, à espera da ceia. (Aqui jantamos ao meio dia.) À chegada senti uma inesperada desilusão: – Sta. Cruz não me pareceu tão belo! Até, Deus me perdoe, achei a serra um pouco banal e mesquinha. Mas não foi impressão duradoura. Dois ou três passeios bastaram para me fazer experimentar l’ancien charme.

(A quinta) anda bem tratada, o José Pinto tem plantado bastante vinha, e o aspecto geral é de bem amanhada. Desta vez tenho-a visitado em mais detalhe. É uma boa terra.

Ainda por aqui fico, se Deus quiser, dois ou três dias.”

 Depois da primeira visita a esta região do Douro, logo veio ao escritor a ideia de escrever o conto “Civilização” que, por sua vez, está na origem do romance “A Cidade e As Serras”   e de que estas duas cartas estabelecem alguma relação entre a realidade e a fantasia.

 Um dos factos curiosos é que, neste caso,  e ao contrário do que é mais frequente, a ficção substituíu a realidade, de tal forma que hoje, aquela Casa e aquela Quinta, para já não falar da própria estação ferroviária de Aregos, são conhecidas por “Tormes”, conforme o romance assim as imortalizou.

Novembro 5, 2009 Publicado por ildaborges | FEQ, Património, Região | | Sem comentários ainda

“A Cidade e as Serras” . Como tudo começou.

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Santa Cruz é inteiramente de outra natureza. É extremamente belo. O caminho íngreme e alpestre da estação até à quinta é simplesmente maravilhoso.

Vales lindíssimos, carvalheiras e soutos de castanheiros seculares, quedas de água, pomares, flores, tudo há naquele bendito monte…”

À primeira vista, este pequeno trecho pode parecer já uma descrição ficcional da paisagem celebrada n’”A Cidade e as Serras” e da Quinta que hoje dá  pelo nome de Tormes.

Na realidade, trata-se de uma pequena parte da carta que Eça de Queirós escreveu a sua mulher, Emília, filha dos Condes de Resende, em 28 de Maio de 1892, logo depois de ter vindo, pela primeira vez, tomar conhecimento e posse da Casa e Quinta de Vila Nova, em Baião, na freguesia de Santa Cruz do Douro.

E aconteceu isto, porque os bens da família Resende, do Palácio de Santo Ovídio, no Porto, eram muitos e espalhados por todo o país, inclusive no Alentejo, cabendo ao escritor e a sua cunhada Benedita escolherem, por herança, entre a “Quinta da Torre”, em Beire, perto de Penafiel, e esta de Baião, entre o Marão e o Douro.

Pelo encantamento de que dá testemunho a descrição que acima se reproduz, o autor de “Os Maias” não teve a mais pequena hesitação em fazer a sua escolha daquela que seria a única habitação de sua propriedade que teve durante a vida.

Ali veio mais algumas vezes, pensando restaurá-la para trazer, de Paris, a mulher e os filhos, a passar algums tempos férias, o que infelizmente não viria a acontecer devido à morte prematura do escritor.

Mas uma ideia lhe passou logo pela imaginação fértil de romancista, e dela darei conta no próximo apontamento.

Novembro 5, 2009 Publicado por ildaborges | FEQ, Património, Região | | Sem comentários ainda

Convite a uma leitura de “A Cidade e as Serras”.

Como leitora que não é especialista em questões de literatura decidi reler “A Cidade e as Serras” tendo em atenção o seu valor patrimonial abrangente (também literário) e, particularmente a sua relação com esta magnífica região do Douro Verde e a actual Fundação Eça de Queiroz.

 Dessa leitura irei deixando aqui algumas reflexões dispersas.

 Se algum leitor quiser partilhar comigo os seus comentários sobre este livro, a propósito de aspectos que considere mais interessantes, ficaria muito satisfeita.

 Aqui fica o convite e o agradecimento antecipado.

 Ilda Borges

Outubro 21, 2009 Publicado por ildaborges | FEQ, Património, Região | | Sem comentários ainda

“Queirosiana” entra numa fase inovadora, em 2009.

queirosiana3A revista “Queirosiana”, que já vai no 14º número, começou por ser editada pela Associação dos Amigos de Eça de Queiroz, entidade que esteve na origem da Fundação com o nome do escritor, até que esta tivesse existência legal.

 Actualmente é um dos seus rostos principais não só no que diz respeito ao autor de “Os Maias” e de “A Cidade e as Serras”, mas também aos escritores da sua geração.

Dirigida pelo Prof. Carlos Reis, Presidente da Associação e membro do Conselho Cultural da Fundação, reitor da Universidade Aberta e um dos mais conhecidos especialistas da obra queirosiana, esta publicação vai entrar agora numa “terceira fase”, já que os contributos para uma parte substancial dos conteúdos de cada número vão ser confiados a diferentes Universidades do país ou do estrangeiro, com departamentos de estudos literários.

Para além da divulgação das principais actividades da Fundação e  da diversidade dos estudos científicos, que já eram uma realidade, pretende-se com esta metodologia uma sistematização maior das colaborações e, sobretudo, uma periodicidade mais efectiva da publicação.

 

Para o efeito, e com o apoio do Director e do Conselho de Redacção, um outro conhecedor profundo de Eça de Queirós, o Prof. Orlando Gossegesse, da Universidade do Minho, começou já a preparar esta nova etapa, com as funções de Coordenador Executivo desta prestigiada revista.

 

Ilda Borges

Manuel Fonseca

Janeiro 1, 2009 Publicado por ildaborges | FEQ | | 3 Comentários

Boas Festas!

 

Oh, Jacinto, que estrela é esta, aqui, tão viva, sobre o beiral do telhado?

 

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E entre duas janelas uma cómoda antiga, embutida, com ferragens lavradas, recebera sobre o seu mármore rosado o devoto peso de um Presépio, onde Reis Magos, pastores de surrões vistosos, cordeiros de esguedelhada lã, se apressavam através de alcantis para o Menino, que na sua lapinha lhes abria os braços, coroado por uma enorme Coroa Real.”

 

(Eça de Queirós, in A Cidade e as Serras)

 

Ilda Borges

Manuel Fonseca

 

Dezembro 22, 2008 Publicado por ildaborges | FEQ | | 5 Comentários

TORMES E A SUA FUNDAÇÃO QUEIROSIANA, UM LUGAR MÍTICO TAMBÉM NA COMUNICAÇÃO SOCIAL

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A Casa e a Quinta de Vila Nova, em Santa Cruz do Douro, herança de família que Eça baptizou de “Tormes”, a ponto de a ficção mudar o nome à realidade, na força impressionante de uma prosa que é matriz da língua portuguesa, transformou-se num lugar mítico para os apreciadores do autor de “A Cidade e as Serras”. E, talvez por isso, também dos jornalistas que lhe sabem dar o valor devido.

 Os últimos oito dias são apenas mais um bom  exemplo de como a Comunicação Social gosta de passar por ali e beber numa “fonte” que não é apenas a dos “espertos regatinhos” que o escritor se deliciava a ver e ouvir sussurar nesta paisagem que tanto o deslumbrou. É que a Fundação, para além de conservar memórias preciosas da vida e do mundo queirosiano, é, sobretudo uma âncora no desenvolvimento cultural e social da região e do país.

 Referimo-nos à reportagem publicada no “Jornal de Notícias” do Sábado passado (13/12/08), que dá pelo nome de “Viagem a Tormes”, escrita e ilustrada por Manuel Vitorino e Joana Bougard, e de outra reportagem, ontem mesmo, para a RTP Internacional.

 Esta última, da produtora Inês Marques, destina-se ao programa “Olhares”, que passam em clips de 2/3 minutos, com aspectos da modernidade de Portugal ao nível da Arquitectura, Infra-estruturas, Equipamentos Culturais, Desportivos, Industriais, e Eventos de relevância histórica nacional, entre outros.

 Ficamos, assim, à espera de mais um “olhar” diferente sobre a”Casa de Eça”.

 

 

 Ilda Borges

Manuel Fonseca

Dezembro 19, 2008 Publicado por ildaborges | FEQ | | 2 Comentários

A FUNDAÇÃO EÇA DE QUEIROZ ESTENDE A SUA ACTIVIDADE PARA ALÉM FRONTEIRAS

 

 

Com sede em Tormes, Baião, a Fundação Eça de Queiroz concluíu esta semana, no dia 9 de Dezembro, uma iniciativa ambiciosa e de grande projecção nos meios académicos internacionais: o ciclo de conferências sobre “O Último Eça” que percorreu Universidades de França, Espanha, Itália, Brasil e Estados Unidos.

 

Projecção das ideias do escritor, projecção das actividades da Fundação, projecção da região.

 

A coordenação científica esteve a cargo de uma “pessoa da casa”, Marie-Helène Piwnic, responsável por uma das várias traduções de “A Cidade e as Serras”( 202, Champs -Elysées) e Professora da Universidade de Sorbonne/Paris IV.

 

O projecto teve a colaboração do Ministério da Ciência e do Ensino Superior e a participação de especialistas queirosianos dos países referidos, com temas que foram desde “A imagem da Itália em Eça de Queirós”, até às “Zonas de diálogo entre o jornalismo e a ficção no último Eça”.  Sim, porque Eça começou por ser jornalista.  E até foi nessa actividade que lançou algumas raízes para vir a ser, com António Vieira e mais alguns vultos cimeiros, um dos grandes mestres da melhor prosa que algum dia se escreveu em Português.

Não está ainda realizado o balanço final da iniciativa, mas é bom saber que a participação excedeu as expectativas. Voltaremos ao assunto.

 

Ilda Borges

Manuel Fonseca

 

Dezembro 11, 2008 Publicado por ildaborges | FEQ | | 1 Comentário