O Gabinete de Jacinto; só não tinha Internet!

“..toda uma Máquina sumptuosa, aparelhos, rodas, lâminas, tubos, engrenagens, hastes, friezas, rigidezas de metais…
… examinei curiosamente, sobre a sua imensa mesa de trabalho, uma estranha e miúda legião de instrumentozinhos de níquel, de aço, de cobre, de ferro, com gumes, com argolas, tenazes, com ganchos, com dentes, expressivos todos, de utilidades misteriosas. Tomei um que tentei manejar – e logo uma ponta malévola me picou um dedo.
…
E, com efeito, de uma redoma de vidro posta numa coluna, contendo um aparelho esperto e diligente, escorria para o tapete, como uma ténia, a longa tira de papel com caracteres impressos que eu, homem das serras, apanhei, maravilhado. A linha, traçada em azul, anunciava ao meu amigo Jacinto que a fragata russa Azoff entrara em Marselha com avaria.
…
Jacinto atirou uma exclamação impaciente:
-Oh, estas penas eléctricas!… Que seca!
…
Pulei, com um berro.
- Oh Jacinto, aqui há um homem! Está aqui um homem a falar dentro de uma caixa!
O meu camarada, habituado aos prodígios, não se alvoroçou:
É o Conferençofone…Exactamente como o Teatrofone, somente aplicado às escolas e às conferências. Muito cómodo!
…
Os utensílios misteriosos que atulhavam a mesa de ébano foram para ela (a condessa de Trèves) uma iniciação que a enlevou. Oh, o “numerador de páginas”! oh, o “colador de estampilhas”!
Afinal, há pouco mais de cem anos, parece que nem a Internet faltava, no Gabinete de Jacinto! Mas já a tira de papel do telégrafo comparada , por Zé Fernandes a uma ténia, e os aparelhozinhos que picavam constituem pequenos indícios ou presságios para desconfiar de tanto “progresso”.
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