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202 Champs–Elysées

202 ch ely

Mas dentro, no peristilo, logo me surpreendeu um elevador instalado por Jacinto –  apesar de o 202 ter somente dois andares, e ligado por uma escadaria tão doce que nunca ofendera a asma da Sra. Dª Angelina! Espaçoso, tapetado, ele oferecia, para aquela jornada de sete segundos, confortos numerosos, um divã, uma pele de urso, um roteiro de Paris, prateleiras gradeadas com charutos e livros. Na antecâmara, onde desembarcámos, encontrei a temperatura macia e tépida de uma tarde de Maio, em Guiães. Um criado, mais atento ao termómetro que um piloto à agulha, regulava destramente a boca dourada do calorífero. E perfumadores, entre palmeiras, como num terraço santo de Benares, esparziam vapor aromatizando e salutarmente humedecendo aquele ar delicado e superfino.

Eu murmurei, nas profundidades do meu assombrado ser:

- Eis a Civilização!

(Eça de Queirós, A Cidade e as Serras, Ulisseia, com uma boa Introdução de Carlos Reis)

E assim, entramos nós também no palácio onde vivia Jacinto, o herói do nosso romance, na companhia do seu amigo Zé Fernandes, que nos vai contar a história, em permanente diálogo connosco, muitas vezes concordando e outras tantas discordando das ideias e atitudes do “seu Príncipe”.

E deste modo começamos também a tomar contacto com um cenário do mais avançado e discutível “progresso” onde Jacinto passou a primeira parte da sua vida.

Como nota curiosa, sendo os Campos Elíseos a avenida mais conhecida de Paris, e uma das mais conhecidas do mundo, o número 202 não existe!

Ou melhor: existe n’A Cidade e as Serras! E até se dá o caso de uma das muitas traduções do romance ter por título “202 Champs-Elysées” precisamente da professora Marie Hélène Piwnic, nada mais nada menos do que uma das coordenadoras das Conferências Queirosianas Internacionais, a que já me referi anteriormente.

Novembro 11, 2009 - Publicado por ildaborges | FEQ, Património, Região | | Sem comentários ainda

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