De Vila Nova a Tormes.

“Quinta de Vila Nova
Sta. Cruz do Douro
2 Junho 1898
Minha querida Emília:
Estou aqui há dois dias com o Luís. O tempo tem estado esplêndido até agora; – até um luar esplêndido nos favorece. Falo do luar porque o vejo através das janelas sem vidraças, enquanto escvrevo, à espera da ceia. (Aqui jantamos ao meio dia.) À chegada senti uma inesperada desilusão: – Sta. Cruz não me pareceu tão belo! Até, Deus me perdoe, achei a serra um pouco banal e mesquinha. Mas não foi impressão duradoura. Dois ou três passeios bastaram para me fazer experimentar l’ancien charme.
…
(A quinta) anda bem tratada, o José Pinto tem plantado bastante vinha, e o aspecto geral é de bem amanhada. Desta vez tenho-a visitado em mais detalhe. É uma boa terra.
…
Ainda por aqui fico, se Deus quiser, dois ou três dias.”
Depois da primeira visita a esta região do Douro, logo veio ao escritor a ideia de escrever o conto “Civilização” que, por sua vez, está na origem do romance “A Cidade e As Serras” e de que estas duas cartas estabelecem alguma relação entre a realidade e a fantasia.
Um dos factos curiosos é que, neste caso, e ao contrário do que é mais frequente, a ficção substituíu a realidade, de tal forma que hoje, aquela Casa e aquela Quinta, para já não falar da própria estação ferroviária de Aregos, são conhecidas por “Tormes”, conforme o romance assim as imortalizou.
“A Cidade e as Serras” . Como tudo começou.
![jacinto06[1] jacinto06[1]](http://ildaborges.files.wordpress.com/2009/11/jacinto061.jpg?w=200&h=110)
“… Santa Cruz é inteiramente de outra natureza. É extremamente belo. O caminho íngreme e alpestre da estação até à quinta é simplesmente maravilhoso.
Vales lindíssimos, carvalheiras e soutos de castanheiros seculares, quedas de água, pomares, flores, tudo há naquele bendito monte…”
À primeira vista, este pequeno trecho pode parecer já uma descrição ficcional da paisagem celebrada n’”A Cidade e as Serras” e da Quinta que hoje dá pelo nome de Tormes.
Na realidade, trata-se de uma pequena parte da carta que Eça de Queirós escreveu a sua mulher, Emília, filha dos Condes de Resende, em 28 de Maio de 1892, logo depois de ter vindo, pela primeira vez, tomar conhecimento e posse da Casa e Quinta de Vila Nova, em Baião, na freguesia de Santa Cruz do Douro.
E aconteceu isto, porque os bens da família Resende, do Palácio de Santo Ovídio, no Porto, eram muitos e espalhados por todo o país, inclusive no Alentejo, cabendo ao escritor e a sua cunhada Benedita escolherem, por herança, entre a “Quinta da Torre”, em Beire, perto de Penafiel, e esta de Baião, entre o Marão e o Douro.
Pelo encantamento de que dá testemunho a descrição que acima se reproduz, o autor de “Os Maias” não teve a mais pequena hesitação em fazer a sua escolha daquela que seria a única habitação de sua propriedade que teve durante a vida.
Ali veio mais algumas vezes, pensando restaurá-la para trazer, de Paris, a mulher e os filhos, a passar algums tempos férias, o que infelizmente não viria a acontecer devido à morte prematura do escritor.
Mas uma ideia lhe passou logo pela imaginação fértil de romancista, e dela darei conta no próximo apontamento.
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