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cidadãos jornalistas?

 

Quantos ledores, tantas as sentenças!”. Com esta máxima, Sá de Miranda antecipava, já lá vão mais de quatrocentos anos, uma polémica que veio a ter expressão nas teorias mais recentes da “recepção” dos textos. Referindo-se embora aos textos literários, algumas dessas teorias vieram dar uma ênfase especial ao leitor como “co-autor” desses textos, relegando, por vezes, o escritor para segundo plano. Mas a verdade é que, se não houvesse um escritor, quem poderia ler o seu texto?!

 

No que diz respeito ao texto jornalístico, por excelência informativo, seja ele notícia ou reportagem, o estatuto do leitor coloca-se ainda mais em questão, quando este, com a verdadeira revolução que a interactividade da Web veio permitir, não se limita a “ler”, a “interpretar à sua maneira”, mas é ele próprio que toma a iniciativa de colocar opiniões, mas também informações, à disposição de “outros leitores”.

 

O problema é que o simples cidadão não faz isso apenas nos seus blogs pessoais, mas interage com os próprios jornais online que, depois de alguma reserva inicial, agora lhe solicitam, cada vez mais, uma participação activa, a qual, por melhor ou pior que seja, se torna um indicador do índice de leitura desses jornais, pela quantidade de comentários.

 

Então, eu permitia-me fazer uma distinção, talvez um pouco subtil, na pergunta: não é “jornalismo” (independente de ser mau ou bom jornalismo, porque há exemplo dos dois!) tudo  aquilo que aparece nos jornais? Julgo que sim.

 

Outra questão, bem diferente, será: e basta escrever nos jornais (já nem falo nos blogs), para se ser considerado jornalista? Julgo que não.

O cidadão, que além de poder colocar uma informação ou uma opinião num jornal ou num blog, se o fizer com preocupação de rigor, está a realizar um acto de cidadania e, por isso a aprofundar a vivência democrática. E pode ser uma boa fonte para os profissionais. Mas não é jornalista.

Porque o jornalista, além da formação própria, tem um “estatuto com enquadramento legal”, de onde decorre uma responsabilidade específica.

E integra-se numa “estrutura” onde não faz o que quer, mas cumpre a tarefa que lhe está distribuída nessa estrutura que é um “órgão de comunicação social”.

 

Ilda Borges

Dezembro 10, 2008 Publicado por ildaborges | Uncategorized | | Sem comentários ainda