“Casas para todos?…”
A “Casa do Silvério”
“- E as casas também (…) Era necessário uma reforma! Construir casas novas a todos os rendeiros da quinta…
- A todos?… – O Silvério gaguejava – emudeceu.
(…)
-A! Vossas Excelências riem? Casas para todos, mobílias, pratas, bragal, dez contos de réis! Então também eu rio! Ah! Ah! Ah!”
(Idem)
Jacinto, que já antes se preocupara com a saúde dos caseiros, preocupava-se também com as suas condições de habitação. Uma habitação com dignidade.
O certo é que, sendo este o sonho do próprio escritor, ele veio a concretizar-se, primeiro através dos seus descendentes, pela sua filha Dª Maria d’ Eça e depois por seu neto D. Manuel de Castro.
Isto, para não falar do “movimento” que, com o mesmo sentido foi criado para todo o concelho, com raízes em Tormes, e que veio a dar origem à Obra do Bem Estar Rural de Baião.
Mas isso é outra história.
O que importa é que se reafirme que ruralidade e modernidade não se opõem, antes se completam.
E é também nesse espírito, de uma leitura assim, de A Cidade e as Serras, que nasceu a Fundação Eça de Queirós.
Jacinto “criativo e empreendedor”
E o meu Príncipe, encadeando logo nessa inspirada ideia outra, mais rica e mais vasta, lembrou quanta beleza daria a Tormes encher esses prados, esses verdes ferregiais, de manadas de vacas, formosas vacas inglesas, bem nédias e bem luzidias. Hem? Uma beleza. Para abrigar esses gados ricos, construiria currais perfeitos, de uma arquitectura leve e útil, toda de ferro e vidro, fundamente varridos pelo ar, largamente lavados pela água…Hem? Que formosura! Depois, com todas essas vacas, e o leite jorrando, nada mais fácil e mais divertido, até mais moral, que a instalação de uma queijeira, à fresca moda holandesa, toda branca e reluzente, de azulejos e de mármore, para fabricar os Camemberts, os Bries…Os Coulomiers… Para a casa, que conforto! E para toda a serra, que actividade!
- Pois não te parece, Zé Fernandes?”
(Idem)
Para quem tenha lido mais distraidamente “A Cidade e as Serras”, pode dar-se o caso de ficar a ideia de que, neste livro, se faz a apologia de uma ruralidade onde o progresso não teria lugar, e o que importa é manter a paisagem inalterável, uma espécie de “museu” para turista ver.
Ora, como se vê, não era esse o “sonho” de Jacinto para a sua quinta nem para a sua vida por estas paragens.
Ruralidade não se opõe a modernidade. Pelo contrário.
E não é por acaso que o nosso herói se apressou a instalar alguns dos confortos da cidade, que não podia dispensar: o telefone, por exemplo.
Gastronomia queirosiana em “tertúlia”
E volto, de novo, à “gastronomia queirosiana” porque tive ontem o grato prazer de participar na tertúlia organizada pela “Casa do Lavrador” sobre este tema, com a colaboração da Fundação Eça de Queirós.
Caracterizada pela troca informal de opiniões sobre o assunto, e partindo da primeira ementa que tanto regalou o nosso Jacinto d’A Cidade e as Serras, os participantes foram sucessivamente brindados com a apresentação da “Casa do Lavrador” pela Dra.Daniela Carvalho responsável pela gestão e promoção das iniciativas desta Casa, do tema da tertúlia pelo Dr. Pereira Cardoso, do Conselho Cultural da Fundação Eça de Queiroz, e pela Dra. Sandra Melo, técnica Superior da mesma Fundação, que foi acompanhando todos os componentes da ementa (das entradas à sobremesa).
Original foi a leitura, por parte de alguns participantes, referente a cada um desses componentes. E todos tiveram direito a levar para casa um texto diferente, alusivo ao tema, retirado das mais diversas obras de Eça.
Depois, para além das intervenções mais informais, devem ser registadas as participações muito enriquecedoras do Sr. Presidente da Câmara, Dr. José Luís Carneiro que também fez questão de participar, acompanhado pelo Verador da Educação, Dr. Paulo Pereira, e do Sr. Mário Luís Correia, presidente da Associação dos Criadores da Raça Bovina Arouquesa.
Para fechar com chave de ouro, por todos os quarenta participantes, e conforme o texto – devidamente numerado – foi sorteado um exemplar de “A Cidade e as Serras”, com uma dedicatória da Presidente da Fundação, Sra. Dª. Maria da Graça Salema de Castro.
A propósito, e conforme também fiz questão de enaltecer e lembrar na ocasião, podem os interessados dar uma vista de olhos ou mesmo deixar o seu registo no “Livro de Visitas” virtual “Sabores e Saberes de Baião“, que é uma forma original de partilhar opiniões, comentar e divulgar estas iniciativas e…continuar a “tertúlia”.
Colóquio Internacional em Tormes
Colóquio
Os Estudos Queirosianos
- desafios actuais
- 3 a 5 de Dezembro de 2009
Interrompo estas notas de leitura de “A Cidade e as Serras”, para divulgar mais um evento da Fundação Eça de Queiroz, desta vez integrado na série “Colóquios Internacionais de Tormes – Sendas Queirosianas”, e subordinado ao tema “Os Estudos Queirosianos – desafios actuais”.
A coordenação científica, em parceria com a Faculdade de Letras da Universidade do Porto, está a cargo de Isabel Margarida Duarte, Isabel Pires de Lima e Fátima Marinho e contará com as presenças de investigadores de várias Universidades Portuguesas e Estrangeiras.
Os interessados em saber mais pormenores quanto à inscrição e funcionamento, poderão fazê-lo aqui.
O vinho de Tormes
“ Mas nada o entusiasmava como o vinho de Tormes, caindo de alto, da bojuda infusa verde – um vinho fresco, esperto, seivoso, e tendo mais alma, entrando mais na alma, que muito poema ou livro santo.”
(Idem)
Mais adiante, Jacinto, citando, no original, o poeta latino Virgílio, compara este vinho àquele que era servido à mesa dos imperadores romanos. E, de facto, passados cem anos sobre esta comparação, mais uma vez a fantasia e a realidade se entrelaçam, uma vez que já não se contam pelos dedos os galardões (medalhas de ouro, prata e outros troféus), nacionais e internacionais, que o vinho de Tormes tem recebido. E vários outros lhe seguiram o caminho, nesta região do “Douro Verde”. Aliás, é bom lembrar, para os menos entendidos nesta matéria, que o “vinho verde” desta região tem características especiais de aroma e graduação e, tal como os outros, é feito de …uvas maduras!!!
De notar ainda os espumantes naturais que por aqui têm começado a dar boa prova, e também já foram avalizados com prémios além-fronteiras.
“Comer e Beber com Eça de Queiroz”
“Jacinto, em Paris, sempre abominara favas!… Tentou todavia uma garfada tímida – e de novo aqueles seus olhos, que o pessimismo enevoara, luziram, procurando os meus. Outra larga garfada, concentrada, com uma lentidão de frade que se regala. Depois um brado:
- Óptimo… Ah, destas favas sim! Oh que fava! Que delícia! E por esta santa gula louvava a serra, a arte perfeita das mulheres palreiras que em baixo remexiam as panelas, o Melchior que presidia ao bródio…
Deste arroz com fava, nem em Paris, Melchior amigo!
…
E o meu Príncipe, na verdade, parecia saciar uma velhíssima fome e uma longa saudade da abundância, rompendo assim, a cada travessa, em louvores mais copiosos. Diante do louro frango assado no espeto e da salada que ele apetecera na horta, agora temperada com um azeite da serra digno dos lábios de Platão, terminou por bradar: – É divino!”
(Idem)
A gastronomia, em Eça de Queirós, não é apenas mais um pormenor a sublinhar a nota realista das suas narrativas. Pela abundância de citações e pelo contexto em que estas se inserem, adquirem geralmente um significado profundamente simbólico, para uma leitura mais atenta da obra. No caso d’ A Cidade e as Serras”, o pequeno trecho que acima transcrevo, e outros que se lhe seguem, estão claramente associados à transformação profunda que se foi operando no estado de espírito de Jacinto.
De notar que, no seu Dicionário Gastronómico Cultural de Eça de Queiroz, o Embaixador brasileiro Dário de Castro Alves refere 4112 citações em toda a obra, mas não foi por acaso que intitulou o seu livro “Era Tormes e amanhecia”, já que, só d’ “A Cidade e as Serras” , num trabalho de notável paciência e devoção, extraiu 350 daquelas citações.
Mas quem pretender adquirir um verdadeiro álbum belissimamente ilustrado, com as receitas queirosianas, pode fazê-lo na Fundação Eça de Queiroz, com a particularidade de se tratar de um trabalho da Professora Beatriz Berrini, da Pontifícia Universidade de S. Paulo e da experiência autorizada de Maria de Lurdes Modesto: “Comer e Beber com Eça de Queiroz”, Editora Índex, 1995.
Também já agora, em coincidência feliz, aproveito para referir a tertúlia sobre “Gastronomia Queirosiana”, que vai ter lugar na “Casa do Lavrador”, logo ali ao lado da Fundação, no próximo Sábado, dia 28 de Novembro, com início às 19H30 horas, e inscrições limitadas.
O solar e…um cravo amarelo.
“Colhi um cravo amarelo – e penetrei atrás de Jacinto nas salas nobres, que ele contemplava com um murmúrio de horror. Eram enormes, de uma sonoridade de casa capitular, com os grossos muros enegrecidos pelo tempo e o abandono, e regeladas, desoladamente nuas, conservando apenas aos cantos algum monte de canastras ou alguma enxada entre paus. Nos tectos remotos, de carvalho apainelado, luziam, através dos rasgões, manchas de céu. As janelas, sem vidraças, conservavam essas maciças portadas, com fechos para as trancas, que, quando se cerram, espalham a treva. Sob os nossos passos, aqui e além, uma tábua podre rangia e cedia.
-Inabitável! – rugia Jacinto surdamente. – Um horror! Uma infâmia!”
(Idem)
Assim encontrou Jacinto o seu solar, feito arrecadação, e onde teve de dormir numa enxerga, os tamancos do caseiro por chinelos e, “para embrulhar o corpo. uma camisa da comadre, enorme, de estopa áspera”.
Longe estavam os confortos (mandados vir) do 202!
Longe estava a recuperação começada pela filha do escritor, Dª Maria d’Eça, pelo neto D. Manuel de Castro e pela Fundação Eça de Queirós, sob a orientação da sua Presidente, Dª Maria da Graça de Castro!
O “Caminho de Jacinto”
Um blogue geralmente não se compadece com textos muito extensos. Mas devemos admitir que a descrição que eu tomei a liberdade de transcrever anteriormente, constitui uma das melhores formas de “pintar uma paisagem com palavras”, só possíveis na pena de um Eça de Queirós.
E este constitui, por certo, um dos momentos mais altos do seu romance, onde a humanização da natureza, com os “espertos regatinhos” e os “pinheirais pensativos”, aliados ao assobio do “irmão” melro, revelando uma certa devoção franciscana pela Natureza, fazem desta obra “talvez o romance mais ecológico do mundo”, como diz Augusto Abelaira citado por um dos mais ilustres queirosianos (Frank F Sousa, O segredo de Eça: Ideologia e ambiguidade em “A Cidade e as Serras”, pref. de Carlos Reis, COSMOS, Lisboa,1996).
Isto para não falar na chamada ao lugar de tão encantadora paisagem, das duas personagens mais famosas da literatura mundial: D. Quixote e Sancho Pança, no lugar de Jacinto e Zé Fernandes, ou seja, do próprio Eça de Queirós.
Por isso, desde a estação de Tormes (Aregos) até à Fundação Eça de Queirós, chegados de comboio, de carro ou de autocarro, e deparando-se com os mosaicos romanos ( de Cristina Sampaio, executados pela Cooperativa Cultural de Baião – Fonte do Mel) que identificam o início do itinerário, já alguns milhares de visitantes desfrutaram da paisagem que da realidade passou à ficção e da ficção retornou à realidade.
A Paisagem que fez esquecer os males!
Hoje sem comentários, sem “outras” imagens.
Apenas ler, sentir, “ver”, respirar… demorando os olhos em cada frase, em cada palavra.
Pelo simples “prazer do texto”, como propunha Roland Barthes:
“…E começámos a trepar o caminho, que não se alisara nem se desbravara desde os tempos em que o trilhavam, com rudes sapatões ferrados, cortando de rio a monte, os Jacintos do século XIV! Logo depois de atravessarmos uma trémula ponte de pau, sobre um riacho quebrado por pedregulhos, o meu Príncipe, com o olho de dono subitamente aguçado, notou a robustez e a fartura das oliveiras… – E em breve os nossos males esqueceram ante a imcomparável beleza daquela serra bendita!
Com que brilho e inspiração copiosa a compusera o divino Artista que faz as serras, e que tanto as cuidou, e tão ricamente as dotou, neste seu Portugal bem-amado! A grandeza igualava a graça. Para os vales, poderosamente cavados, desciam bandos de arvoredos, tão copados e redondos, de um verde tão moço, que eram como um musgo macio onde apetecia cair e rolar. Dos pendores, sobranceiros ao carreiro fragoso, largas ramarias estendiam o seu toldo amável, a que o esvoaçar leve dos pássaros sacudia a fragrância Através dos muros seculares, que sustêm as terras liados pelas heras, rompiam grossas raízes coleantes a que mais hera se enroscava. Em todo o torrão, de cada fenda, brotavam flores silvestres. Brancas rochas, pelas encostas, alastravam a sólida nudez do seu ventre polido pelo vento e pelo sol; outras, vestidas de líquen e de silvados floridos, avançavam como proas de galeras enfeitadas; e, de entre as que se apinhavam nos cimos, algum casebre que para lá galgara, todo amachucado e torto, espreitava pelos postigos negros, sobre as desgrenhadas farripas de verdura, que o vento lhe semearta nas telhas. Por toda a parte a água sussurrante, a água fecundante… Espertos regatinhos fugiam, rindo com os seixos, de entre as patas da égua e do burro; grossos ribeiros açodados saltavam com fragor de pedra em pedra; fios direitos e luzidios como cordas de prata vibravam e faiscavam das alturas aos barrancos; e muita fonte, posta à beira de veredas, jorrava por uma bica, beneficamente, à espera dos homens e dos gados… Todo um cabeço por vezes era uma seara, onde um vasto carvalho ancestral, solitário, dominava como seu senhor e guarda. Em socalcos verdejavam laranjais rescendentes. Caminhos de lajes soltas circundavam fartos prados com carneiros e vacas retouçando:- ou mais estreitos, entalados em muros, penetravam sob ramadas de parrra espessa, numa penumbra de repouso e frescura. Trepávamos então alguma ruazinha de aldeia, dez ou doze casebres, sumidos entre figueiras, onde se esgaçava, fugindo do lar pela telha vã, o fumo branco e cheiroso das pinhas.. Nos cerros remotos, por cima da negrura pensativa dos pinheirais, branquejavam ermidas. O ar fino e puro entrava na alma, e na alma espalhava alegria e força. Um esparso tilintar de chocalhos de guizos morria pelas quebradas…
Jacinto adiante, na sua égua ruça, murmurava:
- Que beleza!
E eu atrás, no burro de Sancho, murmurava:
- Que beleza!
Frescos ramos roçavam os nossos ombros com familiaridade e carinho. Por trás das sebes, carregadas de amoras, as macieiras estendidas ofereciam as suas maçãs verdes, porque as não tinham maduras. Todos os vidros de uma casa velha, com a sua cruz no topo, refulgiram hospitaleiramente quando nós passámos. Muito tempo um melro nos seguiu, de azinheiro a olmo, assobiando os nossos louvores. Obrigado irmão melro! Ramos de macieira, obrigado! Aqui vimos! Aqui vimos! E sempre contigo fiquemos, serra tão acolhedora, serra de fartura e paz, serrta bendita entre as serras!”
De Paris para Tormes
“… com gravidade, como se anunciasse o seu casamento ou a sua morte, deixou desabar sobre mim esta declaração formidável:
- Zé Fernandes, vou partir para Tormes.
O pulo com que me sentei abalou o rijo leito de pau-preto do velho “D.Galião”:
- Para Tormes? Oh Jacinto, quem assassinaste?…
Deleitado com a minha emoção, o Príncipe da Grã-Ventura tirou da algibeira uma carta, e encetou estas linhas, decerto já relidas, fundamente estudadas:
- “Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor – Tenho grande satisfação em comunicar a Vossa Excelência que por toda esta semana devem ficar prontas as obras da capela…”
- É do Silvério? – exclamei.
…
Por cima rebrilhava o profundo, rico e macio azul de que meus olhos andavam aguados.
Sacudi violentamente Jacinto:
- Acorda, homem, que estás na tua terra!
Ele desembrulhou os pés do meu paletot, cofiou o bigode, e veio sem pressa, à vidraça que véu abrira, conhecer a sua terra.
- Então é Portugal, hem?…Cheira bem.
… e ambos em pé, às janelas, esperamos com alvoroço a pequenina Estação de Tormes, termo ditoso das nossas provações. Ela apareceu enfim, clara e simples, à beira do rio, entre rochas, com os seus vistosos girassóis enchendo um jardinzinho breve, as duas altas figueiras assombreando o pátio, e por trás a serra coberta de velho e denso arvoredo…”
(Idem)
Pelo meio, fica toda uma viagem atribulada, uma Tormes de Espanha, a perda de todas as bagagens e do próprio Grilo, o fiel escudeiro. Para cúmulo das confusões e desencontros, não havia na estação, nem procurador, nem caseiros, nem cavalos, mas…
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