Ildaborges’s Blog

Just another WordPress.com weblog

Colóquio Internacional em Tormes

  Colóquio

Os Estudos Queirosianos

- desafios actuais

    3 a 5 de Dezembro de 2009

 Interrompo estas notas de leitura de “A Cidade e as Serras”, para divulgar mais um evento da Fundação Eça de Queiroz, desta vez integrado na série “Colóquios Internacionais de Tormes – Sendas Queirosianas”, e subordinado ao tema “Os Estudos Queirosianos – desafios actuais”.

A coordenação científica, em parceria com a Faculdade de Letras da Universidade do Porto, está a cargo de Isabel Margarida Duarte, Isabel Pires de Lima e Fátima Marinho e contará com as presenças de investigadores de várias Universidades Portuguesas e Estrangeiras.

Os interessados em saber mais pormenores quanto à inscrição e funcionamento, poderão fazê-lo aqui.

Novembro 27, 2009 Publicado por ildaborges | FEQ, Património, Região | | Sem comentários ainda

O vinho de Tormes

“ Mas nada o entusiasmava como o vinho de Tormes, caindo de alto, da bojuda infusa verde – um vinho fresco, esperto, seivoso, e tendo mais alma, entrando mais na alma, que muito poema ou livro santo.”

(Idem)

 Mais adiante, Jacinto, citando, no original, o poeta latino Virgílio, compara este vinho àquele que era servido à mesa dos imperadores romanos. E, de facto, passados cem anos sobre esta comparação, mais uma vez a fantasia e a realidade se entrelaçam, uma vez que já não se contam pelos dedos os galardões (medalhas de ouro, prata e outros troféus), nacionais e internacionais, que o vinho de Tormes tem recebido. E vários outros lhe seguiram o caminho, nesta região do “Douro Verde”. Aliás, é bom lembrar, para os menos entendidos nesta matéria, que o “vinho verde” desta região tem características especiais de aroma e graduação e, tal como os outros, é feito de …uvas maduras!!!

De notar ainda os espumantes naturais que por aqui têm começado a dar boa prova, e também já foram avalizados com prémios além-fronteiras.

Novembro 21, 2009 Publicado por ildaborges | FEQ, Património, Região | | Sem comentários ainda

“Comer e Beber com Eça de Queiroz”

“Jacinto, em Paris, sempre abominara favas!… Tentou todavia uma garfada tímida – e de novo aqueles seus olhos, que o pessimismo enevoara, luziram, procurando os meus. Outra larga garfada, concentrada, com uma lentidão de frade que se regala. Depois um brado:

- Óptimo… Ah, destas favas sim! Oh que fava! Que delícia! E por esta santa gula louvava a serra, a arte perfeita das mulheres palreiras que em baixo remexiam as panelas, o Melchior que presidia ao bródio…

Deste arroz com fava, nem em Paris, Melchior amigo!

E o meu Príncipe, na verdade, parecia saciar uma velhíssima fome e uma longa saudade da abundância, rompendo assim, a cada travessa, em louvores mais copiosos. Diante do louro frango assado no espeto e da salada que ele apetecera na horta, agora temperada com um azeite da serra digno dos lábios de Platão, terminou por bradar: – É divino!”

(Idem)

 A gastronomia, em Eça de Queirós, não é apenas mais um pormenor a sublinhar a nota realista das suas narrativas. Pela abundância de citações e pelo contexto em que estas se inserem, adquirem geralmente um significado profundamente simbólico, para uma leitura mais atenta da obra. No caso d’ A Cidade e as Serras”, o pequeno trecho que acima transcrevo, e outros que se lhe seguem, estão claramente associados à transformação profunda que se foi operando no estado de espírito de Jacinto.

 De notar que, no seu Dicionário Gastronómico Cultural de Eça de Queiroz, o Embaixador brasileiro Dário de Castro Alves refere 4112 citações em toda a obra, mas não foi por acaso que intitulou o seu livro “Era Tormes e amanhecia”, já que, só d’ “A Cidade e as Serras” , num trabalho de notável paciência e devoção, extraiu 350 daquelas citações.

 Mas quem pretender adquirir um verdadeiro álbum belissimamente ilustrado, com as receitas queirosianas, pode fazê-lo na Fundação Eça de Queiroz, com a particularidade de se tratar de um trabalho da Professora Beatriz Berrini, da Pontifícia Universidade de S. Paulo e da experiência autorizada de Maria de Lurdes Modesto: Comer e Beber com Eça de Queiroz”, Editora Índex, 1995.

 Também já agora, em coincidência feliz, aproveito para referir a tertúlia sobre “Gastronomia Queirosiana”, que vai ter lugar na “Casa do Lavrador”, logo ali ao lado da Fundação, no próximo Sábado, dia 28 de Novembro, com início às 19H30  horas, e inscrições limitadas.

Novembro 21, 2009 Publicado por ildaborges | FEQ, Património, Região | | Sem comentários ainda

O solar e…um cravo amarelo.

Colhi um cravo amarelo – e penetrei atrás de Jacinto nas salas nobres, que ele contemplava com um murmúrio de horror. Eram enormes, de uma sonoridade de casa capitular, com os grossos muros enegrecidos pelo tempo e o abandono, e regeladas, desoladamente nuas, conservando apenas aos cantos algum monte de canastras ou alguma enxada entre paus. Nos tectos remotos, de carvalho apainelado, luziam, através dos rasgões, manchas de céu. As janelas, sem vidraças, conservavam essas maciças portadas, com fechos para as trancas, que, quando se cerram, espalham a treva. Sob os nossos passos, aqui e além, uma tábua podre rangia e cedia.

-Inabitável! – rugia Jacinto surdamente. – Um horror! Uma infâmia!

(Idem)

 Assim encontrou Jacinto o seu solar, feito arrecadação, e onde teve de dormir numa enxerga, os tamancos do caseiro por chinelos e, “para embrulhar o corpo. uma camisa da comadre, enorme, de estopa áspera”.

Longe estavam os confortos (mandados vir) do 202!

Longe estava a recuperação começada pela filha do escritor, Dª Maria d’Eça, pelo neto D. Manuel de Castro e pela Fundação Eça de Queirós, sob a orientação da sua Presidente, Dª Maria da Graça de Castro!

Novembro 20, 2009 Publicado por ildaborges | FEQ, Património, Região | | Sem comentários ainda

O “Caminho de Jacinto”

Um blogue geralmente  não se compadece com textos muito extensos. Mas devemos admitir que a descrição que eu tomei a liberdade de transcrever anteriormente, constitui uma das melhores formas de “pintar uma paisagem com palavras”, só possíveis na pena de um Eça de Queirós.

E este constitui, por certo, um dos momentos mais altos do seu romance, onde a humanização da natureza, com os “espertos regatinhos” e os “pinheirais pensativos”, aliados ao assobio do “irmão” melro, revelando uma certa devoção franciscana pela Natureza, fazem desta obra “talvez o romance mais ecológico do mundo”, como diz Augusto Abelaira citado por um dos mais ilustres queirosianos (Frank F Sousa, O segredo de Eça: Ideologia e ambiguidade em “A Cidade e as Serras”, pref. de Carlos Reis, COSMOS, Lisboa,1996).

Isto para não falar na chamada ao lugar de tão encantadora paisagem, das duas personagens mais famosas da literatura mundial: D. Quixote e Sancho Pança, no lugar de Jacinto e Zé Fernandes, ou seja, do próprio Eça de Queirós.

Por isso, desde a estação de Tormes (Aregos) até à Fundação Eça de Queirós, chegados de comboio, de carro ou de autocarro, e deparando-se com os mosaicos romanos ( de Cristina Sampaio, executados pela Cooperativa Cultural de Baião – Fonte do Mel) que identificam o início do itinerário, já alguns milhares de visitantes desfrutaram da paisagem que da realidade passou à ficção e da ficção retornou à realidade.

            ”Obrigado, irmão melro!”

Novembro 18, 2009 Publicado por ildaborges | FEQ, Património, Região | | Sem comentários ainda

A Paisagem que fez esquecer os males!

Hoje sem comentários, sem “outras” imagens.

Apenas ler, sentir, “ver”, respirar… demorando os olhos em cada frase, em cada palavra.

Pelo simples “prazer do texto”, como propunha Roland Barthes:

…E começámos a trepar o caminho, que não se alisara nem se desbravara desde os tempos em que o trilhavam, com rudes sapatões ferrados, cortando de rio a monte, os Jacintos do século XIV! Logo depois de atravessarmos uma trémula ponte de pau, sobre um riacho quebrado por pedregulhos, o meu Príncipe, com o olho de dono subitamente aguçado, notou a robustez e a fartura das oliveiras… – E em breve os nossos males esqueceram ante a imcomparável beleza daquela serra bendita!

Com que brilho e inspiração copiosa a compusera o divino Artista que faz as serras, e que tanto as cuidou, e tão ricamente as dotou, neste seu Portugal bem-amado! A grandeza igualava a graça. Para os vales, poderosamente cavados, desciam bandos de arvoredos, tão copados e redondos, de um verde tão moço, que eram como um musgo macio onde apetecia cair e rolar. Dos pendores, sobranceiros ao carreiro fragoso, largas ramarias estendiam o seu toldo amável, a que o esvoaçar leve dos pássaros sacudia a fragrância Através dos muros seculares, que sustêm as terras liados pelas heras, rompiam grossas raízes coleantes a que mais hera se enroscava. Em todo o torrão, de cada fenda, brotavam flores silvestres. Brancas rochas, pelas encostas, alastravam a sólida nudez do seu ventre polido pelo vento e pelo sol; outras, vestidas de líquen e de silvados floridos, avançavam como proas de galeras enfeitadas; e, de entre as que se apinhavam nos cimos, algum casebre que para lá galgara, todo amachucado e torto, espreitava pelos postigos negros, sobre as desgrenhadas farripas de verdura, que o vento lhe semearta nas telhas. Por toda a parte a água sussurrante, a água fecundante… Espertos regatinhos fugiam, rindo com os seixos, de entre as patas da égua e do burro; grossos ribeiros açodados saltavam com fragor de pedra em pedra; fios direitos e luzidios como cordas de prata vibravam e faiscavam das alturas aos barrancos; e muita fonte, posta à beira de veredas, jorrava por uma bica, beneficamente, à espera dos homens e dos gados… Todo um cabeço por vezes era uma seara, onde um vasto carvalho ancestral, solitário, dominava como seu senhor e guarda. Em socalcos verdejavam laranjais rescendentes. Caminhos de lajes soltas circundavam fartos prados com carneiros e vacas retouçando:- ou mais estreitos, entalados em muros, penetravam sob ramadas de parrra espessa, numa penumbra de repouso e frescura. Trepávamos então alguma ruazinha de aldeia, dez ou doze casebres, sumidos entre figueiras, onde se esgaçava, fugindo do lar pela telha vã, o fumo branco e cheiroso das pinhas.. Nos cerros remotos, por cima da negrura pensativa dos pinheirais, branquejavam ermidas. O ar fino e puro entrava na alma, e na alma espalhava alegria e força. Um esparso tilintar de chocalhos de guizos morria pelas quebradas…

Jacinto adiante, na sua égua ruça, murmurava:

- Que beleza!

E eu atrás, no burro de Sancho, murmurava:

- Que beleza!

Frescos ramos roçavam os nossos ombros com familiaridade e carinho. Por trás das sebes, carregadas de amoras, as macieiras estendidas ofereciam as suas maçãs verdes, porque as não tinham maduras. Todos os vidros de uma casa velha, com a sua cruz no topo, refulgiram hospitaleiramente quando nós passámos. Muito tempo um melro nos seguiu, de azinheiro a olmo, assobiando os nossos louvores. Obrigado irmão melro! Ramos de macieira, obrigado! Aqui vimos! Aqui vimos! E sempre contigo fiquemos, serra tão acolhedora, serra de fartura e paz, serrta bendita entre as serras!”

Novembro 18, 2009 Publicado por ildaborges | FEQ, Património, Região | | Sem comentários ainda

De Paris para Tormes

“… com gravidade, como se anunciasse o seu casamento ou a sua morte, deixou desabar sobre mim esta declaração formidável:

- Zé Fernandes, vou partir para Tormes.

O pulo com que me sentei abalou o rijo leito de pau-preto do velho “D.Galião”:

- Para Tormes? Oh Jacinto, quem assassinaste?…

Deleitado com a minha emoção, o Príncipe da Grã-Ventura tirou da algibeira uma carta, e encetou estas linhas, decerto já relidas, fundamente estudadas:

- “Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor – Tenho grande satisfação em comunicar a Vossa Excelência que por toda esta semana devem ficar prontas as obras da capela…”

- É do Silvério? – exclamei.

Por cima rebrilhava o profundo, rico e macio azul de que meus olhos andavam aguados.

Sacudi violentamente Jacinto:

- Acorda, homem, que estás na tua terra!

Ele desembrulhou os pés do meu paletot, cofiou o bigode, e veio sem pressa, à vidraça que véu abrira, conhecer a sua terra.

- Então é Portugal, hem?…Cheira bem.

… e ambos em pé, às janelas, esperamos com alvoroço a pequenina Estação de Tormes, termo ditoso das nossas provações. Ela apareceu enfim, clara e simples, à beira do rio, entre rochas, com os seus vistosos girassóis enchendo um jardinzinho breve, as duas altas figueiras assombreando o pátio, e por trás a serra coberta de velho e denso arvoredo…”

                                                                                                                                                                                                  (Idem)

Pelo meio, fica toda uma viagem atribulada, uma Tormes de Espanha, a perda de todas as bagagens e do próprio Grilo, o fiel escudeiro. Para cúmulo das confusões e desencontros, não havia na estação, nem procurador, nem caseiros, nem cavalos, mas…

Novembro 17, 2009 Publicado por ildaborges | FEQ, Património, Região | | Sem comentários ainda

(Em Montmartre): o “discurso” sobre a Cidade!

paris v montmartre

(Paris, vista de Montmartre)

E ante estes clamores, lançados com afável malícia para espicaçar o meu Príncipe, ele murmurou pensativo: 

      – Sim, é talvez tudo uma ilusão…E a Cidade a maior ilusão!

Tão facilmente vitorioso redobrei de facúndia. Certamente, meu Príncipe, uma ilusão! E a mais amarga, porque o Homem pensa ter na Cidade a base de toda a sua grandeza e só nela tem a fonte de toda a sua miséria. Vê, Jacinto! Na Cidade perdeu ele a força e beleza harmoniosa do corpo, e se tornou esse ser ressequido e escanifrado ou obeso e afogado em unto, de ossos moles como trapos, de nervos trémulos como arames, com cangalhas, com chinós, com dentaduras de chumbo, sem sangue, sem febra, sem viço, torto, corcunda – esse ser em que Deus, espantado, mal pode reconhecer o seu esbelto e rijo e nobre Adão! Na Cidade findou a sua liberdade moral: cada manhã ela lhe impõe uma necessidade e o arremessa para uma dependência: pobre e subalterno, a sua vida é um constante solicitar, adular, vergar, rastejar, aturar…

E o Amor, na Cidade, meu Jacinto? Considera esses vastos armazéns com espelhos, onde a nobre carne de Eva se vende, tarifada ao arrátel, como a de vaca! …

Assim, meu Jacinto, na Cidade, nesta criação tão antinatural onde o solo é de pau e feltro e alcatrão, e o carvão tapa o céu, e a gente vive acamada nos prédios como o paninho em lojas, e a claridade vem pelos canos, e as mentiras se murmuram através de arames – o homem aparece como uma criatura anti-humana, sem beleza, sem força, sem liberdade, sem riso, sem sentimento, e trazendo em si um espírito que é passivo como um escravo ou impudente como um histrião…E aqui tem o belo Jacinto o que é a bela Cidade!

O meu Príncipe vergou a nuca dócil…naqueles cimos de Montmartre:

- Sim, com efeito, a Cidade…É talvez uma ilusão perversa! 

                                                                                                                       (Idem)

São estas apenas algumas linhas, da célebre passagem, em que Zé Fernandes, tendo levado Jacinto aos altos de Montmartre, com o pretexto de observar os trabalhos da construção da Basílica do Sacré-Coeur, num dos melhores miradouros sobre a imensidão de Paris, aproveita para dissertar sobre “todos os males” da Cidade.

Tenho para mim que, mais uma vez, este texto, da primeira parte do romance, deve ser lido na estrita intenção irónica, de contrapor, como “força de expressão” esses males aos benefícios da vida que não pode prescindir da Natureza – o que não significa necessariamente a condenação do progresso, a qualquer preço, como poderemos vir a perceber pelos confortos reclamados por Jacinto, em Tormes, para si e para os seus caseiros.

Novembro 16, 2009 Publicado por ildaborges | FEQ, Património, Região | | Sem comentários ainda

A ceia e o episódio do peixe.

poisson

“- Uma festa?

- Por causa do Grão-Duque, coitado, que me vai mandar um peixe delicioso e muito raro que se pesca na Dalmácia.

- Meus amigos, há uma desgraça…

Dornan pulou da cadeira:

- Fogo?

Não, não era fogo. Fora o elevador dos pratos que inesperadamente, ao subir o peixe de Sua Alteza, se desarranjara, e não se movia, encalhado!

- É muito simples…É pescar o peixe!

… Nem se necessitava, para a divertida façanha, mais que uma bengala, uma guita e um gancho. Imediatamente Madame d’ Oriol, excitada, ofereceu um dos seus ganchos. Apinhados em volta dela, sentindo o seu perfume, o calor da sua pele, todos exaltámos a amorável dedicação. E o Psicólogo proclamou que nunca pescara com tão divino anzol.

… Mas debalde! O gancho, pouco agudo, sem presa, bamboleando na extremidade da guita frouxa, não fisgava. Não era possível! Só carpinteiros, com alavancas! … E todos, ansiosamente, bradámos que se abandonasse o peixe!

E Jacinto, num som cavo que era bocejo e rugido:

- Uma maçada! E tudo falha!”

(Idem)

E tudo isto, numa sala de jantar, cujo ambiente, mobiliário, talheres…nada fica a dever aos luxos e confortos já aqui relembrados para a Biblioteca, o Gabinete de Jacinto e a Sala de Banho do 202. Para não falar da copa, com os dois ascensores “que rolavam das profundidades da cozinha, um para os peixes e carnes aquecido por tubos de água fervente, o outro para as saladas e gelados revestido de placas frigoríficas.”  Só que, o primeiro deles lá encravou o peixe do Grão-Duque e estragou toda uma festa onde estava o resumo da mais alta sociedade parisiense!

Entretanto, no Solar de Tormes, por onde circulavam as galinhas, os caseiros continuavam a guardar os cereais, as batatas e algumas alfaias agrícolas, num abandono esquecido de todo o mundo!…

Novembro 16, 2009 Publicado por ildaborges | FEQ, Património, Região | | Sem comentários ainda

A toilette de Jacinto, no 202

esc masc

“…Encontrava o meu amigo banhado, barbeado, friccionado, envolto num roupão branco de pêlo de cabra do Tibete, diante da sua mesa de toilette, toda de cristal, (por causa dos micróbios) e atulhada com esses utensílios de tartaruga, marfim, prata, aço e madrepérola que o homem do século XIX necessita para não desfear o conjunto sumptuário da Civilização e manter nela o seu Tipo. As escovas sobretudo renovavam, cada dia, o meu regalo e o meu espanto – porque as havia largas como a roda maciça de um carro sabino; estreitas e mais recurvas que o alfange de um mouro; côncavas, em forma de telha aldeã; pontiagudas em feitio de folha de hera; rijas, que nem cerdas de javali; macias que nem penugem de rola! De todas fielmente, como amo que não desdenha nenhum servo, se utilizava o meu Jacinto. E assim, em face ao espelho emoldurado de folhedos de prata, permanecia este Príncipe passando pêlos sobre o seu pêlo durante catorze minutos.

 No entanto o Grilo e outro escudeiro, por trás dos biombos de Quioto, de sedas lavradas, manobravam, com perícia e vigor, os aparelhos do lavatório – que era apenas um resumo das máquinas monumentais da Sala de Banho, a mais estremada maravilha do 202.”

A descrição continua sobre a diferente temperatura da água para os duches, a barba ou os dentes e outras condições e acessórios que nos fazem sorrir pelo pitoresco, mas também pela ironia de Zé Fernandes.

Novembro 15, 2009 Publicado por ildaborges | FEQ, Património, Região | | Sem comentários ainda